Retalhos da vida de um jovem portimonense que viveu o 25 de Abril em Lisboa

Um relato na primeira pessoa, escrito poucos dias depois do 25 de Abril, de um então jovem portimonense que viveu a revolução em Lisboa

José Vitorino no desfile do 1º de Maio de 1974, em Lisboa

No dia 25 de Abril de 1974, José Vitorino tinha 19 anos e era estudante do Instituto Comercial de Lisboa (ICL).

Há 50 anos, pouca gente tinha máquina fotográfica, telemóveis eram ainda coisa da ficção científica e até havia poucos telefones ou mesmo aparelhos de rádio. Televisão só os mais abastados tinham.

Mas o José Vitorino, um algarvio de Portimão, registou, por escrito, em páginas bem organizadas e passadas à máquina de escrever, as suas memórias desses dias de susto e maravilha, que ele viveu com entusiasmo e fervor.

Aqui fica um capítulo dos seus «Retalhos da Vida», partilhando na primeira pessoa o que foi esse «dia inicial, inteiro e limpo».

 

Eram sete horas e cinco minutos da manhã do dia 25 de Abril de 1974 quando o despertador tocou. Ensonado, tirei a mão do quentinho e parei a campainha. Quinta-feira. A primeira aula era Industrial Teórica, às oito horas.

Ganhei coragem, saltei da cama, calcei os peúgos e vesti o roupão. Peguei na tralha do sabonete, escova de dentes, etc. e fui para a casa de banho. Quando lá cheguei ia a sair a “menina” Alice. Foi mesmo a tempo. Entrei e olhei pela primeira vez nesse dia para fora, para ver se chovia ou não – estava o céu cinzento, como habitualmente, mas não estava muito frio. Depois de me despachar e tomar o pequeno almoço, saí, enquanto os meus colegas de quarto ressonavam. Continuavam com aulas de vez em quando.

Quando comecei a descer a rua da Estrela, em frente ao Royal British Club, estava um quartel da GNR com a porta fechada e o soldado plantado na sacada do primeiro andar. Já me tinha habituado às prevenções e pensei que, mais uma vez – e como de costume – dali a três ou quatro dias já estaria tudo normal.

Passei pelo Jardim da Estrela, onde os cisnes continuavam a dormir dentro de água com o pescoço debaixo das asas, borrifando-se para o mundo, e os flamingos pareciam ovais de penas em cima de canas de foguete a balançar ao sabor do vento. Sempre gostei daquele oásis no meio do sarrabulho lisboeta.

Ao chegar ao fim da Calçada da Estrela, ainda ia meio a dormir e nem reparei no pouco trânsito que havia. Apenas notei que estava uma série de elétricos parados no Largo da Basílica.

Também me pareceu esquisito que tivessem substituído os habituais GNR “decorativos” que guardavam o palácio de S. Bento por soldados em farda normal e capote. Pensei que era capaz de encontrar o quartel da calçada do Combro de prevenção. Acertei. Também tinha um fulano de plantão no primeiro andar.

Quando cheguei à banca dos jornais junto ao elevador da Bica, onde costumava parar para ver os títulos dos periódicos, houve um que me chamou a atenção nas “últimas notícias” de “O Século”. Dizia: “Tropas ocupam estações de rádio”. Por cima, estava: “O Chefe do Estado visitou na FIL a Feira de Antiguidades” e uma fotografia da veneranda figura. Pensei em comprar o jornal, mas deitei contas à vida e vi que não valia a pena gastar quinze tostões com aquilo. Dei a volta à esquina e entrei no Instituto.

Quando cheguei, fiquei aparvalhado quando a Zé se atirou ao meu pescoço, gritando: – É agora! Agora é que vai!

Parecia tudo doido. Sem perceber bem o que se estava a passar, começaram a chover as informações: pela Graça, soube que havia movimento de tropas junto à linha de Sintra; pela Ana, que na marginal estavam tanques; outro disse que a Baixa estava cercada de tropas.

Descobriu-se um rádio não sei onde. Só se ouvia música do “contra”- Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, J.J.Letria e afins. Corri a comprar “O Século”, e o orçamento que se lixasse. Afinal, o jornal não trazia mais nada além do que eu já tinha lido.

O ICL estava em polvorosa, com um misto de receio e alegria. Formavam-se e desfaziam-se grupos de conversas, ia-se para as portas para apanhar mais informações de quem chegava, dava-se um saltinho até às esquinas que ficavam mais perto para ver se notávamos algo de estranho. Estava o grupo quase formado para irmos em expedição ver o que se passava, quando chegou o professor de Industrial Teórica. Ficou tudo de boca aberta ao ver a descontração do gajo ao entrar pela porta adentro, ficar à espera que nos sentássemos e começar a explicar a matéria. Estávamos tão banzados que nem reagimos e ficámos na aula.

Meia hora depois, ele pára a meio do que ia dizendo, junta os dedos e diz muito calmo:

–  Que é que se passa com vocês? Estou farto de explicar isto, mas noto que vocês não estão cá. O que há?

Toda a minha gente começou a explicar ao mesmo tempo o que se passava e ele não percebia nada. Mostrei-lhe o recorte do jornal. Aí ele, muito espantado, lembrou-se de que tinha ligado como de costume a Emissora Nacional e não conseguiu apanhar o programa da manhã. E até um soldado – é verdade, o que é que um soldado estava a fazer lá? – o tinha mandado ir para outra rua, e ele teve que correr meia cidade para chegar ao Instituto.

O autor, com duas colegas, em Lisboa, no dia 29 de Abril de 1974

 

Acabámos a aula, saímos todos e fomos para a Baixa. No Camões e Rossio, nenhum trânsito, só pessoas a andarem bem depressa. No fim da Rua Garret, viramos à direita e demos de caras com as primeiras tropas. A Rua da Conceição estava ocupada e de lá ninguém passava.

As pessoas, entre receosas e curiosas, estavam num passeio, e as tropas estavam no outro. No cruzamento da Rua do Ouro, estavam os primeiros Chaimites que vi. Mas o que me assustou foram dois soldados deitados junto ao lancil, com duas metralhadoras de tripé apontadas para o Rossio.

Ouviam-se as primeiras perguntas. -De que lado estão vocês? – perguntou um civil, mas o soldado não respondeu.

Um fulano baixinho, de casaco, que estava ao pé de mim, disse: – Encontrei um rapaz da minha terra- aquele ali- e disse-me que vieram de Santarém para acabar com isto.

– Qual isto? perguntaram vários. Ele encolheu os ombros e respondeu que parecia que eles eram contra o Governo. O pessoal já estava a chegar a essa conclusão, transformando-a em certeza.

Alguém lembrou que eles eram capazes de ter fome. Do nada, surgiu um saco enorme de plástico cheio de sandes. Começaram a oferecer tabaco e estabeleceu-se uma confraternização momentânea, prelúdio das loucuras que iriam acontecer neste aspeto.

Um tropa comia uma sandes de fiambre, enquanto, com a boca cheia, ia dizendo que, desde as três da manhã que andava no laré e ainda não tinha comido nada.

Visivelmente nervoso, um oficial que tinha estado a conversar com um grupo de bancários (entre os quais estava o meu professor de Industrial), deu ordem para as pessoas se afastarem. Ninguém ligou muito. Quando deu ordem de preparar as armas, houve até um tropa mais nervoso que deixou cair qualquer coisa metálica (creio que o carregador). Este ruído, seco, atuou como um chicote.

Saiu a ordem de puxar a culatra atrás e alguém, enervado com o ruído, começou a fugir. Foi o rastilho. Pernas para que vos quero. Nunca pensei que seria capaz de subir a encosta da Rua da Conceição tão depressa. Ia de cabeça baixa, quase agachado, e, olhando para o passeio ao lado, vejo dois tropas a encolherem-se no vão de uma porta, com as armas apontadas para a zona de onde vínhamos. Aí ganhei asas. A turba correu que nem um raio. Quando dei por mim, estava, com uma parte do grupo, no Chiado.

Eram cerca das dez e meia. Resolvemos ir explorar metodicamente a situação. Fomos ao miradouro da Graça. De lá, víamos o Tejo, e, no meio dele, um barco de guerra, a fumegar, de baterias apontadas para o ar. Quando descíamos novamente para a Baixa, notava-se um silêncio opressivo, como se a cidade estivesse de respiração suspensa. De vez em quando, ouvia-se pequenas rajadas.

Separei-me da malta. Fui outra vez até à Rua da Conceição. Já lá não estavam tropas, já se podia passar. A curiosidade foi mais forte que o medo. Fui até ao Terreiro do Paço. Junto ao Ministério da Defesa, estava uma camioneta de passageiros, da tropa, com gente dentro. Próximo, notava-se dois tanques e blindados. Grupos de militares saíam e entravam. Chegou um Citroen DS preto que esteve pouco tempo e partiu como uma flecha.

No Tejo, mesmo em frente, continuava a fragata. Mais tarde, soube que o seu comandante tinha dado ordem de disparar um tiro de aviso, de pólvora seca. Os artilheiros recusaram-se a obedecer à ordem. Nesse mesmo momento, numa ruela ali perto, estavam em frente um do outro dois tanques e várias tropas. Uns pelo Governo, outros contra. Se esse tiro fosse disparado, a guerra civil teria começado ali.

Nisto, chegou um polícia junto de mim. Era um “choque”. Distraído com o que se passava, oiço-o dizer:  – Desculpe, mas é capaz de sair daí? É que está a atrapalhar o trânsito. Mecanicamente, dei meia volta e vim-me embora. Ouvi ao longe um “Obrigado!”.

Parece que apanhei um safanão e, de repente, tive a sensação de que tínhamos ganho. Foi um polícia de choque que me criou o asco ao Governo. Foi outro que me comunicou que esse Governo tinha, enfim, caído.

 

O autor, com duas colegas, na Praça da Figueira, no dia 1º de Maio de 1974

 

Ia junto ao tapume dumas obras quando comecei a ver o pessoal a correr. Passei a andar mais depressa. Por uma das transversais, divisei, ao fundo, tropa a passar no meio de muita gente. Atrás de mim, oiço gritar ”-Vem aí a Marinha”. Foi o maior susto que apanhei nesse dia. Se a Marinha era do contra e as outras tropas estavam lá em cima, eu estava no meio da guerra.

Quando cheguei, esbaforido, ao Rossio, fiquei pasmado. Parecia que tinha caído no meio duma feira. Ouvia-se “Viva a liberdade” “Viva o MFA”. Vi lágrimas nos olhos dum velhote, que tinha um sorriso de vinte anos. Chaimites carregados de gente cheia de cravos vermelhos, passavam devagarinho por um mar de gente. Quando dei por mim, estava junto ao João. Perto, passou um jipe com um quadrado de cartolina vermelho colocado num canto do pára brisas (era o distintivo do contra).

Um carro da Polícia estava atravessado, tapando a subida para a Rua Nova do Almada. Parou a festa. Desenrola-se um pequeno drama: chiam os pneus do jipe, que trava com um solavanco. Levanta-se um tropa e diz a dois polícias que estavam aparvalhados a olhar para aquilo: – Tirem-me esta merda da frente!. Sem um ai, os dois entram rapidamente no carro e desaparecem.

A coluna põe-se em movimento o a festa continua. Olho  para o relógio. Meio dia e meia. O João diz que a fome já começa a fazer cócegas. Vamos para casa. Pelo caminho, à medida que nos afastamos do centro dos acontecimentos, a cidade parece que se ia normalizando, mais pessoas, mais carros. De vez em quando, nota-se um grupo de soldados, um quartel da GNR todo fechado, um blindado numa esquina. Mas a vida continuava.

Em casa da D. Virgínia, o pessoal andava agitado, mil e uma hipóteses se levantavam. O rádio estava aberto e, quando se ouvia uma marcha militar de John Philip Sousa (descendente de portugueses) cujo nome era, salvo erro, “Above the waves”, fazia-se silêncio, porque a seguir vinha um comunicado do Movimento das Forças Armadas.

Depois de almoço fui para a casa do irmão do meu primo Elias, onde estava reunida toda a família. O Carlos tinha um rádio portátil bastante bom e tinha sintonizado na banda em que a GNR falava. Nessa altura, ele era tropa, mas tinham-no mandado para casa.

Na Cova da Moura, que era um dos QG de Lisboa e onde ele estava destacado, aquilo era uma confusão. Ninguém dava ordens e todos as davam. Havia uns muito calados e até um oficial graúdo da Marinha que lá tinha chegado sem saber de nada. Posto ao corrente do que se estava a passar, ele perguntou se não era preso, ao que um cabo disse: -Se calhar é! Olhe, fique aqui que a gente já vê. E lá ficou muito bem sentadinho à espera. De vez em quando, até perguntava se já sabiam alguma coisa sobre a sua situação.

Também tinha lá chegado um motorista dum senhor general que estava muito preocupado, porque o “Senhor General” não podia ir trabalhar sem o carro. Fomos interrompidos pelo rádio: -“Atenção Mike Rómio, escuto! Mike Rómio, escuto. Não nos é possível progredir. A situação aqui está muito confusa. Os civis não nos deixam mexer. Ali mais abaixo já tive problemas com eles. Atiraram pedras e dificultam os movimentos. Como a gente não se tem movido eles julgam que somos agora das tropas amigas. Não sei o que hei-de fazer. Escuto”.

Fez-se um silêncio apenas quebrado pela estática. Depois soou uma voz que disse: “- Entendido e terminado”. Estes eram uns soldados da GNR que estavam no largo do Camões, e a conversa revelava bem o seu estado de espírito.

Entretanto, tínhamos umas bebidas e uns aperitivos e ia-se passando a tarde. Ouvia-se de vez em quando mais umas comunicações rádio, uma das quais era de um pelotão da Guarda que horas antes tinha recebido ordens de ir até à Baixa e que estava ainda na Praça do Chile. De vez em quando, o comando do Quartel do Carmo perguntava se já tinham chegado. Não passaram de onde estavam.

Pelas cinco horas, já eu estava em ferros para ir ver o que se passava. Disse ao meu primo que ia para casa para ele ficar descansado.

Saí em passo de corrida e, nem de propósito, encontrei logo o João e o Guerra que vinham da Baixa. Segundo eles, a situação estava sob controlo, mas ainda havia agitação no Carmo.

Fui logo para lá. No Camões, estavam os tristes dos GNR a ver quem passava. Subi para o Carmo e, à medida que ia andando, ia encontrando cada vez mais gente. Quando cheguei, deparei-me com um mar de gente. Era um arraial tradicionalmente português. Gente empoleirada em cima de árvores da fonte que está no meio do largo e até nem a paragem dos elétricos, que tinha um telhado de zinco, escapou. Até veio abaixo com o peso do pessoal.

Toda a minha gente andava em festa, cheia de cravos, alegria, soldados, blindados, confusão. Já se viam soldados cheios de garrafas.

Um tinha quatro: uma nos bolsos da blusa, duas nos bolsos das calças e uma nas mãos. Apesar de tudo, ainda conseguia aguentar uma G-3, que servia para lembrar que aquilo não era nenhuma festa. A parede do Quartel tinha buracos de balas e vários vidros estavam partidos . Cada vez que alguém espreitava de lá de dentro, ouvia-se uma vaia terrível.

Um capitão (que mais tarde soube que se chamava Salgueiro Maia) em cima dum chaimite incitou o pessoal a sair dali, porque já estava tudo resolvido. Mas achei os soldados demasiado tensos a olhar para o ar. Seguindo o olhar deles, vi outros colocados nos telhados dos prédios fronteiros. Estavam com medo que aparecesse algum helicanhão.

O autor, com três colegas, no Campo de Santana, no dia 1º de Maio de 1974

 

Chegou um Peugeot 304 preto. Lá dentro, vinha o General António de Spínola. Gritos e aclamações. Ele mal consegue sair do carro e entrar no Quartel. (Soube depois que o Marcelo Caetano não queria que o poder caísse na rua pelo que o mandou chamar para lhe passar o testemunho).

Fui dando umas voltas pelos arredores, vendo as tropas e encontrando gente conhecida do ICL, toda entusiasmada, de maneira que, quando voltei ao Largo, vi sair um Chaimite com um jipe à frente a abrir caminho.

Quando se soube que lá dentro ia o Marcelo, foi o fim do mundo: – gente a dar socos na blindagem do Chaimite, vaias enormes, o pessoal ficou desvairado. Estava consumada a queda do regime.

Vim andando e, antes de chegar ao edifício do jornal “A República”, assisti à “caça ao pide”: muita gente a fugir gritando “- Agarra que é pide”, só parando no Largo da Misericórdia, quando a tropa salvou os pides de serem apanhados e de apanharem. Mas, mesmo assim, o pessoal estava marafado. Vingaram-se no carro em que eles vinham. Viraram o carro e partiram-no todo. Era um Toyota novinho.

N’ “A República” estava um individuo muito solenemente a colocar umas lâmpadas verdes e vermelhas a imitar a bandeira nacional por baixo do placard. O número do jornal que saiu nesse dia trazia uma faixa dizendo: “- ESTE JORNAL NÃO FOI VISADO POR QUALQUER COMISSÃO DE CENSURA”. Toda a minha gente comprava jornais. Era uma loucura.

Resolvi ir jantar. Quando virei para o Largo do Camões, vinha rua acima uma manifestação espontânea das muitas que se formaram no meio do entusiasmo popular. Cheguei a pensar em me meter nela quando tomaram a direção do Chiado, mas já era tarde para o jantar e começou a chuviscar.

Quando tornei a olhar para eles, estavam a virar para a rua António Maria Cardoso. Ainda bem que não fui com eles, porque, dessa manif, resultaram as únicas mortes daquele dia: quando passavam debaixo das janelas da PIDE/DGS, eles dispararam vários tiros. Caíram para sempre dois jovens, tendo ficado feridos mais três. Mais uma vez, eles mostravam o que eram.

Em casa, onde o pessoal estava todo reunido na sala a discutir o que se estava passando, ficámos até às duas horas da manhã para ver essa coisa da Junta de Salvação Nacional. Houve duas coisas que me impressionaram nessa transmissão televisiva: a chegada dos elementos da Junta, quando iam a subir a rampa que dava acesso aos estúdios e a cara do Galvão de Melo, de gajo de antes quebrar que torcer.

No dia seguinte, a festa continuava. Claro que não houve aulas. O Instituto formigava. Saiu um comunicado contra o Spínola, chamando-lhe Nazi e falando da sua intervenção na Guerra de Espanha na Divisão Azul.

Na parte da tarde, fui ver a sede da DGS ( as iniciais significam Direcção Geral de Segurança e não Direcção Geral da Saúde, apesar de tratar da saúde ao pessoal). Ainda estava isolada e, por todas as ruas que lhe davam acesso, havia tropas, jipes, chaimites e até um tanque, que pareciam vigiar o edifício.

Junto ao S. Carlos, estava um automóvel com vários buracos de balas. Era dum Pide que tinha tentado fugir. Uns dias mais tarde, no primeiro 1º de Maio, tirei uma fotografia ao pé desse carro.

Entretanto, no Largo do Camões, foi-se concentrando pessoal, que era empurrado pela tropa que queria tapar os acessos à António Maria Cardoso. Eu estava em cima dum banco do jardim com a Ana, a Graça, o Corado, enfim, o grupo do ICL. A multidão estava nervosa e agitada. Parecia que estávamos em cima dum barril de pólvora.

 

Vários capítulos dos «Retalhos da Vida», que o Sul Informação irá publicar

 

De repente, vindas do Largo do Calhariz, chegaram duas “níveas” da PSP- Polícia de Choque. Foi dar fogo ao rastilho. A populaça reagia como doida. Realmente não sei quem caiu na asneira de mandar aqueles tipos, que representavam o que de mais odioso existia no regime fascista, para ali, quando o pessoal estava embriagado pela liberdade, e ainda tinha bastante fresco na memória o que tinha aguentado. O fogo chegou à pólvora e eu vejo uma mão sair da janela de um dos “níveas” e disparar dois tiros para o ar. Foi o fim. A tropa julgou que estavam a disparar contra ela e ripostou.

A malta voou de cima do banco para se abrigar. Passei quase por cima dum carro que estava estacionado, fintei uma velhota que foi derrubada por alguém que ia a meu lado. Meio agachado e correndo junto à parede, curvei para uma das ruas do Bairro Alto, tentei furar e meter-me numa escada, mas a que encontrei com a porta aberta já estava cheia até cima.

Continuei a correr e, já perto de “O Século”, parei com o coração aos pulos, Dei umas voltas e fui encontrando o grupo. A Graça e a Ana tinham enfiado por um restaurante. A Graça só parou na cozinha. A Ana ficou na sala, mas houve um fulano que entrou em voo picado partindo os vidros da porta e então toda a minha gente, com o susto, se atirou para o chão. Desta confusão, fiquei com duas imagens gravadas na mente: o “choque” a disparar e um soldado sentado no passeio com a G-3 apoiada contra a parede a disparar para o ar.. Dias depois, encontrei o mesmo soldado a “patrulhar” a Rua Garret, abraçado dum lado à arma e do outro a uma miúda.

No sábado seguinte, caí no meio do “Caso Peralta”. Pedro Peralta era um capitão cubano, que foi atingido numa perna e capturado na Guiné. Estava na altura no Hospital Militar Principal da Estrela. Uma série de organizações da extrema-esquerda pedia a sua libertação.

Quando saí de casa, admirei-me de ver tanta gente dentro do Jardim da Estrela. Até um velhote que costumava vender os jornais, que pendurava nos varões do gradeamento do Jardim, estava desta vez bem dentro, em vez de, como normalmente, estar na parte de fora do Jardim. Viam-se muitas pedras soltas, o que sempre era sinal de que havia qualquer coisa na zona. Por mim, passou um fulano que trazia (mal) disfarçada uma barra de ferro embrulhada num jornal.

Ao chegar ao Largo, estava a tradicional manifestação, ajuntamento e soldados, alguns deles misturados e a apoiar a manif pela libertação do Cubano. Ainda o vi espreitar a uma janela do Hospital. O trânsito estava interrompido, tinham bloqueado as linhas dos elétricos.

De repente, vindo não sei de onde, sai um tanque em grande velocidade e faz um pião em frente à Basílica. O condutor daquilo devia ser doido. A multidão agitou-se, e, vindo da Avenida Infante Santo, vejo chegar o “carro da tinta azul”, tendo sido saudado por uma chuva de pedras. Um dos manifestantes conseguiu subir para a carroçaria e partir os canos que ligavam às mangueiras da água. Ficou o carro fora de combate. No rescaldo, a Liga Comunista Internacionalista (LCI), um dos agrupamentos que apoiava a manifestação, retirou-se no meio de grandes discussões.

No dia seguinte, um domingo, a televisão transmitia em direto um Grande Prémio em Fórmula 1. Nos intervalos, ia dando uns saltos até à Estrela para fazer o ponto da situação. Continuavam uns manifestantes deitados em sacos-camas ou sentados no chão, com cartazes enfiados nas linhas dos amarelos, paralisando o tráfego.

Depois de acabar a transmissão (ganhou o Niki Lauda, em Ferrari), voltei para lá. Quando cheguei ao cruzamento da Ferreira Borges com a Saraiva de Carvalho, estava uma carrada de gente a olhar para baixo, para a Estrela. Vi umas confusões e agitação lá em baixo, e resolvi ir ver o que era. Quando lá cheguei, estava um esquadrão da GNR a cavalo (os capicuas – besta, sela, besta) no Largo. Estavam com os capacetes e capotes cinzentos a ser vaiados e insultados à brava.

Às tantas, começam a formar em linha e a tentar empurrar o pessoal. Começam a voar pedras e, no mesmo momento, eles avançam. Era assustador. Só quem viu uma coisa daquelas é que sabe dar o valor. Era uma carga da cavalaria. Uma linha compacta de cavalos a subir a rua a trote, tirando tudo da frente. Jogaram as mãos às espadas e aí eu enfio pela primeira porta que encontrei aberta. Encontrei lá uma senhora sentada nas escadas, quase a chorar, porque tinha sido apanhada no barulho e quase tinha ficado enrolada naquela onda enorme, cinzenta, azul e castanha.

Fui espreitar e já os vi lá em cima, enquanto o pessoal corria encostado às paredes e à roda dos automóveis por causa dos cavalos. Estive mais um bocado abrigado e depois desci para os evitar. Consegui infiltrar-me na corrente e sair do barulho.

 

 

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